O que ver em Ushuaia: história, museus e mirantes do Fim do Mundo

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  Micaela Lujan 31/07/2019

Antes de responder o que ver na cidade de Ushuaia, vale a pena entender por que ela ganhou o apelido de "a cidade do fim do mundo". Sua história começa milhares de anos atrás, com os povos originários que habitaram o arquipélago fueguino, e continua hoje em cada museu, mirante e rua do centro.

Este guia conta essa história e mostra, com o mesmo nível de detalhe, o que visitar em Ushuaia conforme o tempo que você tiver.

Se você se pergunta o que fazer em Ushuaia além das excursões à montanha e ao Canal de Beagle, a resposta está no próprio centro urbano: museus de Ushuaia que vão desde a vida dos primeiros habitantes até a Guerra das Malvinas, e mirantes de onde se vê toda a baía e a Cordilheira dos Andes ao mesmo tempo. Some-se a isso as paisagens ao redor de Ushuaia, a poucos minutos do centro, sem precisar montar uma excursão de dia inteiro.

A seguir, você vai encontrar o roteiro histórico completo, a lista de lugares turísticos de Ushuaia imperdíveis dentro da cidade, e uma seleção de excursões para cada um desses pontos. Se preferir viajar com tudo já organizado, confira nossos pacotes de viagem para Ushuaia com hospedagem, traslados e passeios incluídos.

História de Ushuaia: dos povos originários à colônia penal

Ushuaia é a capital da província de Tierra del Fuego, tem cerca de 50 mil habitantes e é conhecida como a cidade mais austral do mundo. Seu nome vem da língua yagã: "Ushuaia" significa "no fundo" e "waia" quer dizer "baía", então o nome completo se traduz como "baía no fundo".

Está localizada no extremo sul da Argentina, entre o último trecho da Cordilheira dos Andes e o Canal de Beagle, uma posição geográfica que explica boa parte da sua história e das suas paisagens.

Antes de a cidade existir, a região já tinha milhares de anos de história humana. Entender os povos originários, a missão anglicana e a colônia penal ajuda a olhar com outros olhos cada museu e cada rua do centro que você vai visitar depois.

Os primeiros povos originários de Tierra del Fuego

Os primeiros habitantes da região foram grupos nômades que chegaram a pé desde o norte há mais de 11.000 anos, até o que hoje é a Ilha Grande de Tierra del Fuego. Esses grupos tinham parentesco com os tehuelches e viviam da caça e da coleta; deles descendem os povos ona (ou selk'nam) e haush.

Mais adiante chegaram outros povos, os yámanas e os kawésqar, ambos grupos nômades que se deslocavam em canoas e baseavam sua subsistência na pesca.

historia de ushuaia

Esses povos habitaram o canal de Beagle e suas costas durante milênios, adaptados a um clima extremo com técnicas próprias. Mantinham o fogo aceso permanentemente dentro de suas canoas de casca de árvore, o que chamou a atenção dos primeiros navegadores europeus, que deram à região o nome de "Tierra del Fuego" ("Terra do Fogo").

Os yámanas eram navegadores experientes: percorriam o arquipélago fueguino havia 7.000 anos. Dentro desse povo, eram as mulheres que remavam enquanto os homens se dedicavam à caça e à pesca a partir da canoa.

Grande parte do que hoje se sabe sobre esses povos é preservada nos museus da cidade, que guardam vestígios arqueológicos, utensílios e reproduções de suas embarcações. Conhecer essa etapa antes de percorrer os museus ajuda a entender por que tantas salas são dedicadas à vida cotidiana desses grupos, além da história europeia que veio depois.

A missão anglicana e a fundação da cidade

Em 1869, com autorização dos governos da Argentina e do Chile, chegaram missionários anglicanos com o objetivo de evangelizar os povos originários. A missão, liderada pelo bispo Waite Hockin Stirling, se instalou e começou a construir suas primeiras moradias. No ano seguinte, foi substituído por Thomas Bridges, uma das figuras mais importantes da história fueguina.

Em 1884, o comodoro Augusto Lasserre iniciou uma expedição e, em 12 de outubro daquele ano, criou a Subprefeitura de Ushuaia às margens do Canal de Beagle: essa data é celebrada todo ano como o aniversário de fundação da cidade. Thomas Bridges aceitou a soberania argentina e hasteou a bandeira nacional pela primeira vez no local.

O governo argentino apoiou a missão, mas Bridges decidiu, mais adiante, deixar seu papel de missionário e fundou a Estância Harberton, em 1886, a cerca de 85 km de Ushuaia pela Rota Nacional 3, onde se instalou com sua família.

A colônia penal e a Cárcere do Fim do Mundo

Embora Ushuaia já existisse como assentamento, só se tornou conhecida no restante da Argentina em 1896, quando o governo de Julio Roca impulsionou um projeto de colonização penal: desde então, presos e presas eram enviados à cidade para cumprir penas de vários anos. Como a quantidade de detentos que chegava de Buenos Aires era cada vez maior, em 1902 começou a construção de uma prisão de pedra, erguida pelos próprios presos.

O presídio contava com uma ferrovia de bitola estreita que levava os detentos até os campos de trabalho florestal, no que hoje é o Parque Nacional Tierra del Fuego. Esse mesmo trajeto é o que hoje recria o histórico Trem do Fim do Mundo.

carcel del fin del mundo horarios

O Presídio Militar e Cárcere de Reincidentes funcionou até 1947, e por suas celas passaram personagens que hoje fazem parte do folclore local, como o escritor Ricardo Rojas, o anarquista Simón Radowitsky e o assassino em série Cayetano Santos Godino, conhecido como "o Baixinho Orelhudo". Não é à toa que a prisão de Ushuaia foi apelidada de "a Alcatraz argentina".

A missão anglicana, por sua vez, terminou no fim do século XIX, e é importante destacar que os povos originários sofreram um processo de colonização muito duro: desde o extermínio direto até doenças infecciosas para as quais não tinham nenhuma imunidade. Por volta de 1930, os povos originários da região já haviam desaparecido quase por completo.

Hoje, esse mesmo prédio da prisão é um dos museus mais visitados da cidade, e é o ponto de partida ideal para a próxima seção deste guia.

Museus de Ushuaia: onde conhecer a história da cidade do fim do mundo

Visitar os museus de Ushuaia e os mirantes naturais é a melhor forma de entender a história que você acabou de ler. A maioria fica concentrada no centro da cidade, a pouca distância entre si, então dá para combiná-los em uma única manhã ou tarde de passeio a pé.

Antes de sair, vale saber que nem todos os museus de Ushuaia falam do mesmo período histórico: alguns são centrados nos povos originários e nos primeiros exploradores, outros na vida carcerária do presídio, e um em particular é dedicado inteiramente à Guerra das Malvinas. A seguir, o detalhe de cada um.

Museu Marítimo e do Presídio de Ushuaia (a Cárcere do Fim do Mundo)

O Museu Marítimo e do Presídio de Ushuaia, instalado no prédio do antigo presídio, é o maior complexo museológico da cidade: sob o mesmo teto funcionam quatro museus distintos. O ingresso inclui acesso aos quatro museus e é válido por dois dias, então não é preciso percorrer tudo em uma única visita.

O Museu Marítimo recria a história de Tierra del Fuego sob o ponto de vista do homem do mar, por meio de uma coleção de maquetes e modelos navais.

O Museu do Presídio, localizado no Pavilhão IV, permite percorrer as celas originais e conhecer a vida cotidiana dos detentos, seus trabalhos e castigos. O Museu Antártico "José María Sobral", no andar superior do mesmo pavilhão, reúne materiais históricos e biológicos das expedições à Antártida. E o Museu de Arte Marinha de Ushuaia exibe obras de artistas marinistas argentinos, com uma galeria que também recebe mostras temporárias.

Sobre os horários da Cárcere do Fim do Mundo: o complexo oferece visitas guiadas todos os dias às 11h30, 16h30 e 18h30, além de uma visita teatralizada em que atores, caracterizados como presos, guiam os visitantes pelos pavilhões.

Museu do Fim do Mundo

O Museu do Fim do Mundo é outro imperdível se você quer entender a história de Tierra del Fuego a fundo. Tem duas sedes: a principal fica na Avenida Maipú 173, no antigo prédio do Banco Nación, e um anexo funciona três quadras adiante, na Maipú 465, no local que ocupou a antiga Casa de Governo e Legislatura. A visita ao Museu do Fim do Mundo faz parte do city tour por Ushuaia.

As exposições percorrem a vida dos povos nativos, as primeiras expedições europeias e os colonos, navegadores e aventureiros que marcaram o desenvolvimento da ilha. O museu conserva vestígios arqueológicos, reproduções de utensílios indígenas, documentos do século XIX ligados a expedições científicas e naufrágios, e uma ampla coleção de aves autóctones, com mais de 180 espécies representadas. É, junto com o Museu Marítimo e do Presídio, a melhor porta de entrada para a história completa da região.

Em sua sede principal também há uma sala dedicada inteiramente à história local de Ushuaia, com objetos dos pioneiros que chegaram à ilha entre o fim do século XIX e o início do XX: suas ferramentas de trabalho, fotografias de família e objetos cotidianos que mostram como era a vida em um lugar tão isolado do resto do país.

O anexo da Maipú 465, por sua vez, funciona no prédio que já foi a primeira Casa de Governo do território, outro dado que vale a pena considerar se você se interessa tanto pela arquitetura histórica quanto pelas coleções em exibição.

Museu Pensar Malvinas e outros museus da cidade

O Museu Pensar Malvinas ocupa um lugar à parte entre os museus de Ushuaia, porque é dedicado exclusivamente ao conflito bélico de 1982. Foi inaugurado em 2 de abril de 2012, na Casa Torres, dentro do setor Pueblo Viejo do Paseo de las Rosas, na Avenida 12 de Octubre, e foi criado pelo Centro de Ex-Combatentes das Malvinas de Ushuaia. Exibe material fotográfico, painéis informativos e objetos históricos relacionados à guerra; a entrada é gratuita e abre todos os dias das 10h às 17h.

No mesmo Paseo de las Rosas funcionam outros dois espaços menores: o Museu da Cidade, instalado na antiga residência da família Pena, com objetos e relatos dos primeiros moradores de Ushuaia, e o Museu Casa Beban, uma casa pré-fabricada trazida da Suécia em 1902 que hoje funciona como centro de exposições, com entrada livre e gratuita de segunda a sexta, das 10h às 18h. Para quem se interessa pela fauna marinha da região, o Museu Acatushun completa o passeio com uma coleção de restos ósseos de mamíferos e aves marinhas encontrados nas costas fueguinas.

O que ver na cidade de Ushuaia: paisagens e mirantes imperdíveis

Além dos seus museus, Ushuaia tem algo que poucas cidades podem oferecer: montanha, mar e floresta a poucos minutos do centro. Os mirantes de Ushuaia estão, em sua maioria, a menos de 20 quilômetros do centro urbano, o que permite combiná-los com o roteiro histórico em um mesmo dia.

Estas são as paisagens de Ushuaia mais procuradas por quem visita a cidade, com a distância aproximada a partir do centro e a excursão correspondente a cada uma, caso você prefira fazê-las com guia em vez de por conta própria.

Mirantes do Glaciar Martial

A poucos quilômetros a noroeste do centro, cerca de 7 km pelo Camino al Glaciar, ergue-se o Glaciar Martial, um dos atrativos mais visitados da cidade. Desde sua base, e conforme se sobe pela trilha, abrem-se vários mirantes com vista para o Canal de Beagle, a Cordilheira dos Andes e a cidade inteira aos pés da montanha. É uma excursão curta, ideal para fazer em meio dia, e muito procurada ao entardecer, quando a luz cai sobre a baía.

Você pode percorrê-lo com guia no trekking ao Glaciar Martial, que explora os arredores da geleira, ou escolher a opção de pôr do sol no Glaciar Martial, uma caminhada guiada que atravessa turfeiras e chega a três mirantes diferentes com vistas para o Canal de Beagle, a cordilheira e a cidade iluminada.

O Canal de Beagle: navegação, fauna e paisagens

O Canal de Beagle é, provavelmente, a paisagem mais fotografada de Ushuaia. Do porto da cidade partem navegações de meio dia que passam pelo Farol Les Éclaireurs — popularmente conhecido como o "farol do fim do mundo" — e pela Isla de los Lobos, onde é possível ver uma colônia de leões-marinhos em seu habitat natural. Mais longe, perto da Isla Martillo, fica uma das poucas colônias de pinguins-de-magalhães e pinguins-papua às quais se pode chegar caminhando ao lado de um guia autorizado.

Para o passeio clássico pelo canal, a navegação pelo Canal de Beagle e Isla de los Lobos é a opção mais escolhida, com vistas panorâmicas da cidade a partir da água. Se o objetivo é ver pinguins, a navegação até a pinguineira da Isla Martillo soma essa parada aos pontos clássicos do canal.

Parque Nacional Tierra del Fuego e o Trem do Fim do Mundo

A cerca de 12 km a oeste de Ushuaia, pela Rota Nacional 3, fica a entrada do Parque Nacional Tierra del Fuego, o único parque nacional da Argentina com litoral marítimo. Ali dá para percorrer a Bahía Ensenada, o lago Acigami (ex-lago Roca) e várias trilhas curtas entre bosques de lengas e ñires. O parque se conecta diretamente com a história do presídio: o mesmo trajeto que hoje percorre o Trem do Fim do Mundo — que parte de cerca de 8 km da cidade — é o que os detentos usavam para chegar aos campos de trabalho florestal no início do século XX.

Você pode conhecer o parque combinado com o trem histórico na excursão Parque Nacional Tierra del Fuego com Trem do Fim do Mundo opcional, um dos passeios mais completos para conhecer esse atrativo em meio dia.

Outros lugares turísticos de Ushuaia para completar o roteiro

Além dos museus, dos mirantes e do Parque Nacional, há uma série de lugares turísticos de Ushuaia que completam bem o roteiro, principalmente se você tiver algumas horas livres entre uma excursão e outra ou se o clima não colaborar para sair da cidade.

Esta última seção reúne esses pontos mais urbanos, junto com algumas excursões próximas que aprofundam as paisagens já mencionadas.

Praça 25 de Mayo e o Paseo del Centenario

Bem no centro, a Praça 25 de Mayo reúne o Paseo de los Artesanos, com bancas de tecidos e artesanato local, ideal para o fim da viagem se você busca uma lembrança. A poucas quadras, o Paseo del Centenario, construído para o centenário da cidade, oferece uma das melhores vistas panorâmicas gratuitas de Ushuaia e do Canal de Beagle, muito procurada para fotos ao entardecer e de fácil acesso a pé desde o centro.

Se preferir conhecer esses pontos com um guia que vá explicando a história de cada esquina, o passeio pela cidade em modalidade privada ou o clássico city tour no ônibus panorâmico Double Decker são duas formas confortáveis de ver os principais pontos de interesse sem caminhar demais.

Excursões e mirantes perto da cidade

Se você tiver mais um dia livre e já tiver percorrido o centro e o Glaciar Martial, há opções a pouca distância que mostram outra face das paisagens de Ushuaia. A Laguna Esmeralda, a cerca de 20 km pela Rota Nacional 3, é um dos treks mais escolhidos, com vistas para um vale glacial e a possibilidade de cruzar com raposas, condores ou castores pelo caminho; você pode fazê-lo com guia no trekking até a Laguna Esmeralda.

Para quem busca uma vista panorâmica sem caminhar horas, o trekking 360° ao Cerro Guanaco, dentro do Parque Nacional, sobe a um dos pontos mais altos da região, com vistas para o mar e a montanha ao mesmo tempo. E se você preferir ver todos esses mirantes do alto, sem trekking envolvido, o sobrevoo de helicóptero percorre em poucos minutos o Canal de Beagle, o Glaciar Martial, o Monte Olivia e os Cinco Hermanos, a partir de uma perspectiva que nenhum mirante terrestre pode oferecer.









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