Cemitério da Recoleta: túmulos famosos, histórias e como visitar

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  Joaquín Colman 27/01/2018

O Cemitério da Recoleta é um dos lugares mais visitados de Buenos Aires, e também um dos que mais dúvidas geram antes da visita: quem está enterrado lá, quanto custa a entrada, se vale a pena ir com um tour guiado e o que fazer no bairro depois do passeio.

Este guia responde a cada uma dessas perguntas com o nível de detalhe que você precisa para organizar sua visita. Desde a história do lugar até os túmulos famosos e as lendas que o cercam. Você também vai encontrar recomendações de passeios e tours em Buenos Aires para incluir no seu roteiro.

O cemitério foi fundado em 1822 como o primeiro cemitério público da cidade, e hoje funciona como um museu a céu aberto: mais de 6.400 jazigos e mausoléus convivem em um traçado de ruas internas que lembra uma pequena cidade. Ali repousam mais de 200 personalidades da história argentina, entre elas Eva Perón, ex-presidentes, cientistas e ganhadores de prêmios Nobel, além das famílias que marcaram a economia e a política do país por mais de um século.

A seguir, aprofundamos a história do cemitério e sua relação com o bairro, quem está enterrado ali, como conseguir o ingresso e participar de uma visita guiada, e quais outros passeios fazer em Recoleta antes ou depois do percurso.

 

Quem está enterrado no Cemitério da Recoleta

Uma das perguntas mais frequentes de quem visita o cemitério é, justamente, quem está enterrado ali. A resposta inclui presidentes, cientistas, militares e figuras populares, além de histórias menos conhecidas que fazem parte do passeio tanto quanto os nomes famosos.

Antes de se perder entre os mausoléus, vale a pena ter uma ideia de quem você vai encontrar e por que essas histórias continuam atraindo visitantes mais de um século depois. Esta seção percorre tanto os túmulos famosos mais procurados quanto as lendas que os guias locais contam durante os passeios.

Quais famosos estão no Cemitério da Recoleta

Entre os ex-presidentes sepultados no cemitério estão:

Bartolomé Mitre (1821-1906), que governou entre 1862 e 1868 e impulsionou a organização nacional após as guerras civis;

Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), presidente entre 1868 e 1874 e lembrado sobretudo por seu incentivo à educação pública, que desenhou seu próprio túmulo, coroado por um condor;

Carlos Pellegrini (1846-1906), que assumiu em 1890 em meio a uma crise financeira e fundou o Banco de la Nación Argentina para estabilizar a economia;

Hipólito Yrigoyen (1852-1933), presidente em dois períodos não consecutivos, entre 1916 e 1922 e entre 1928 e 1930, e impulsionador de reformas sociais;

Raúl Alfonsín (1927-2009), presidente entre 1983 e 1989 e responsável por liderar a transição para a democracia após a última ditadura militar.

 

Também está sepultado ali Luis Federico Leloir, químico argentino que ganhou o Prêmio Nobel em 1970, cujo mausoléu de família faz parte dos passeios guiados por seu valor arquitetônico. Outro nome frequente nos tours é Luis Ángel Firpo, o boxeador conhecido como o "Touro Selvagem das Pampas", sepultado sob uma estátua em tamanho real com seu uniforme de boxe.

O túmulo de Eva Perón (1919-1952) é o mais visitado do cemitério. Embora não tenha sido presidente, ela foi esposa de Juan Domingo Perón e uma figura central do peronismo, lembrada por seu trabalho em defesa dos direitos das mulheres e dos setores mais marginalizados. Seu corpo levou mais de duas décadas para finalmente descansar em paz, depois de uma trajetória que incluiu um exílio forçado na Europa; hoje está sepultada no jazigo da família Duarte, a vários metros de profundidade.

Se você quiser se aprofundar na história dessa figura da história argentina, não deixe de fazer o tour da vida de Eva Perón em Buenos Aires. Você vai percorrer lugares e salões que marcaram a biografia da líder política e viram crescer seu vínculo com milhões de argentinos. Outra opção é o passeio A Buenos Aires de Eva Perón e Jorge Luis Borges, que inclui o Cemitério da Recoleta e lugares emblemáticos da vida do escritor argentino.

O Cemitério da Recoleta em histórias e lendas

Além dos nomes famosos, boa parte do atrativo do cemitério está em suas histórias menos oficiais. Na verdade, são essas que os guias vão contando mausoléu por mausoléu. São relatos que misturam fatos documentados com tradição oral, e que explicam por que certos túmulos concentram tanta curiosidade.

A mais conhecida é a de Rufina Cambaceres, uma jovem de 19 anos que morreu em 1902 e foi enterrada após um diagnóstico de síncope cardíaca. Dias depois, sua mãe encontrou a tampa do caixão deslocada, o que deu origem à crença de que Rufina havia sido enterrada viva. Seu jazigo é reconhecido pela escultura da jovem com a mão apoiada na maçaneta, como se tentasse sair.

Outra história recorrente é a de Liliana Crociati, uma jovem artista que morreu em uma avalanche durante sua lua de mel na Áustria, em 1970. Sua família construiu um jazigo de estilo neogótico com uma escultura de Liliana em seu vestido de noiva, acompanhada pela figura de seu cachorro Sabú, que havia morrido naquele mesmo dia em Buenos Aires.

Também faz parte do passeio a lenda da Dama de Branco, Luz María García Velloso, uma jovem falecida aos 17 anos cujo túmulo fica perto da entrada principal. E há a história de David Alleno, um zelador do cemitério que trabalhou ali desde a infância e economizou a vida toda para poder pagar seu próprio túmulo, com uma estátua que o representa com suas ferramentas de trabalho.

Uma história menos conhecida, mas igualmente chamativa, é a do empresário Alfredo Gath, sócio da histórica loja Gath y Cháves. Tomado pelo medo de ser enterrado vivo — um temor que a própria história de Rufina Cambaceres havia instalado na sociedade da época —, ele mandou projetar um caixão com um mecanismo hidráulico que lhe permitiria escapar caso continuasse vivo após o enterro. Testou o sistema doze vezes sem problemas; segundo a lenda, na décima terceira vez, ninguém acionou o mecanismo a tempo.

Como visitar o Cemitério da Recoleta: ingressos e tours

Organizar a visita é simples, mas vale conhecer alguns detalhes antes de ir: os horários podem variar, o ingresso tem um mecanismo particular conforme o país de origem do visitante, e há mais de uma forma de percorrer o cemitério com guia.

O cemitério fica na Junín 1760, no coração do bairro da Recoleta, a poucas quadras da Basílica del Pilar e da Plaza Francia. Dá para chegar a pé a partir de boa parte do bairro, de transporte público ou de táxi. A seguir, os dados práticos para planejar a visita.

Ingressos para o Cemitério da Recoleta

O horário geral de visita é de segunda a domingo, das 9h às 17h, embora seja bom confirmar antes de ir, já que pode variar conforme a temporada. Os ingressos para o Cemitério da Recoleta são comprados oficialmente pelo portal de ingressos do Governo da Cidade de Buenos Aires, e a tarifa varia conforme o visitante seja argentino ou estrangeiro. O sistema oficial aplica um valor diferenciado para cada caso, então vale a pena conferir o preço vigente antes da visita, em vez de se guiar por um valor fixo.

A compra pode ser feita com antecedência pelo site oficial ou diretamente na entrada do cemitério, onde o pagamento é feito apenas com cartão de débito ou crédito. Se você for participar de um tour guiado com horário fixo, vale comprar o ingresso com pelo menos 15 minutos de antecedência em relação ao encontro com o guia, para evitar atrasos na fila de acesso, principalmente aos fins de semana e feriados, quando o cemitério recebe mais visitantes.

 

Visita guiada ao Cemitério da Recoleta

Há diferentes formas de percorrer o cemitério com explicação de um guia, dependendo do orçamento e do idioma que você busca. A mais econômica é o free tour do Cemitério da Recoleta, organizado pelo próprio Governo da Cidade: passeios guiados e gratuitos em espanhol, que saem a cada hora a partir do acesso principal, de segunda a sexta das 10h às 16h, e aos sábados, domingos e feriados das 9h às 16h. Essa opção não exige reserva prévia, embora as vagas por grupo sejam limitadas.

Para quem prefere uma experiência mais narrativa, com foco em histórias e lendas específicas, existem tours privados como o walking tour do Cemitério da Recoleta, um passeio guiado de duas horas que começa na entrada principal e avança pelos pontos mais procurados do cemitério: o túmulo de Eva Perón, o mausoléu da família Leloir, a história de Rufina Cambaceres, a homenagem a Liliana Crociati e seu cachorro, o mistério da Dama de Branco e o jazigo de Luis Ángel Firpo, entre outras paradas.

O tour é feito em inglês, em grupos reduzidos, e é importante ter em mente que a entrada no cemitério não está incluída: é preciso comprá-la separadamente antes do horário de encontro com o guia.

Sobre o tour noturno do Cemitério da Recoleta, vale esclarecer algo antes de sair procurando: o cemitério fecha os portões às 17h, então não é possível percorrê-lo à noite. O que existe são passeios noturnos pelo bairro da Recoleta que retomam as mesmas lendas do cemitério caminhando pelos arredores depois do pôr do sol.

Outras atrações perto do Cemitério da Recoleta

A poucos metros da entrada está a Basílica Nuestra Señora del Pilar, construída sobre os mesmos terrenos ocupados pelos monges recoletos, e um dos templos coloniais mais bem conservados da cidade. Também bem perto está a Plaza Francia, onde costuma acontecer uma feira de artesanato aos fins de semana, e o Museu Nacional de Belas Artes, a poucas quadras, ideal para somar um passeio cultural no mesmo dia.

Com o cemitério, a basílica, a praça e os bares da região, é fácil montar uma tarde completa na Recoleta sem precisar se deslocar para outro bairro: o circuito completo pode ser feito a pé, em ritmo tranquilo, em um raio de poucas quadras.

 

O Cemitério da Recoleta e sua importância para o bairro

O cemitério deu identidade a todo o bairro ao seu redor, e essa relação explica boa parte do que se pode ver hoje tanto dentro quanto fora de seus portões. Entender essa história ajuda a valorizar o passeio, porque cada mausoléu conta algo sobre a Buenos Aires que o construiu.

O nome do bairro vem dos monges recoletos, uma ordem religiosa que teve seu convento nesses terrenos durante a época colonial. A antiga horta do convento foi o lugar escolhido para construir o primeiro cemitério público da cidade, projetado pelo engenheiro francês Próspero Catelin. A vizinha Basílica Nuestra Señora del Pilar, que também pertenceu a essa ordem religiosa, continua de pé ao lado do cemitério e faz parte do mesmo passeio.

No fim do século XIX, quando a Recoleta se tornou o bairro preferido das famílias mais abastadas de Buenos Aires, o cemitério passou a ser sua necrópole de referência. Ali começou a disputa que definiu sua aparência atual: cada família queria um mausoléu mais imponente que o da vizinha, e essa rivalidade silenciosa deixou uma das coleções de arte funerária mais importantes da América Latina.

Por que o bairro da Recoleta tem esse nome

O vínculo entre o cemitério e o bairro não é apenas geográfico. Durante a colônia, os monges recoletos se instalaram nessa região e deram seu nome tanto ao convento quanto ao bairro que cresceu ao redor. Quando o convento perdeu força institucional, seus terrenos, incluindo a horta onde hoje fica o cemitério, passaram a ter outros usos, e o cemitério acabou sendo o elemento que manteve vivo o nome original da região.

Essa continuidade histórica é um dos motivos pelos quais caminhar pela Recoleta parece percorrer diferentes camadas da mesma cidade: a Basílica del Pilar representa a etapa colonial e religiosa, enquanto o cemitério e os palacetes ao seu redor mostram a Buenos Aires do fim do século XIX, quando o país vivia um momento de forte expansão econômica.

Arquitetura e patrimônio do cemitério

A riqueza arquitetônica do cemitério também é um capítulo-chave de sua história. Os mausoléus combinam estilos neoclássico, art nouveau e art déco, com mármores e vitrais trazidos da Europa, em uma época em que as famílias patrícias competiam para deixar um testemunho arquitetônico de seu status. Esse patrimônio não passou despercebido pelo Estado: mais de 90 jazigos foram declarados Monumento Histórico Nacional, e o cemitério como um todo tem esse mesmo reconhecimento desde 1946.

Caminhar por suas ruas internas é diferente de percorrer um cemitério convencional. Não há grama nem distância entre os túmulos: os mausoléus estão colados uns aos outros, como prédios de uma cidade em miniatura, e cada um reflete o gosto arquitetônico da família que o construiu. Essa combinação de história, arte e arquitetura é o principal motivo pelo qual o cemitério se tornou uma das atrações turísticas mais importantes de Buenos Aires.

Alguns exemplos ajudam a entender essa diversidade de estilos. O panteão da família Dorrego-Ortiz Basualdo é um dos maiores do cemitério, com uma escultura de uma virgem acendendo um candelabro de sete braços. O túmulo do almirante Guillermo Brown, fundador da Marinha Argentina, é pintado de verde em homenagem à sua origem irlandesa e foi construído, em parte, com o bronze fundido dos canhões dos navios que ele comandou.









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